sábado, 13 de outubro de 2012

Do renascer

Há nove meses eu estava morta. Morta, morta. E envolta em tanta morte eu nem queria nascer de novo. Só queria ficar lá, deitada em posição fetal, morta, morta.

Mas me vi obrigada a nascer de novo. Porque havia sim a possibilidade de uma outra vida, muito embora ali, na hora da morte, parecesse difícil visualizar essa outra vida. Ainda estava muito atrelada à vida que ia se esvaindo aos poucos, não queria deixar ir, parecia tão errado. Nem pela vida ser boa, porque nos últimos suspiros ela nem era. Mas só porque parecia errado. Era só um instinto de sobrevivência. Era só a incredulidade de ver aquela vida indo embora, uma vida na qual eu acreditei tanto, e pus todas as minhas forças e minha parca fé nela. Eita, como doeu. 

Mas aí eu renasci. Ainda não totalmente morta, me foi dado o benefício da dúvida: a oportunidade de tentar de novo. E enquanto a vida antiga ia se esvaindo lenta e dolorosamente, a vida nova teimava em entrar por todos os poros. Era isso. Foi assim que me senti durante os primeiros meses: num embate entre abraçar a morte e lidar com a vida de novo.

E eu me apressei, sei nem porquê. Mas me apressei em morrer definitivamente pra depois nascer de novo. Não esperei o fim da gestação, porque se o tivesse feito teria durado meses, talvez anos, como as coisas costumam ser pra mim: lentas, demoradas, em fogo baixo, pra ter consistência. Não queria aquela mortalha. Não queria viver aquele restinho de vida, o café requentado, o nada que sobrou. Daí apressei a fome, apressei o choro, apressei a falta das pequenas coisas. E fui redescobrindo todas as coisas: o fastio, o sorriso, a presença do que importa.

Renasci antes, e vou dando meus pequenos passos a cada dia. Um após o outro. Se minha vida anterior me fez desaprender as coisas, nessa vida nova tenho sentido o frio na espinha de aprender coisas novas. De fazer planos, de desejar de novo outras pessoas, de querer estar perto de quem faz um bem assim verdadeiro. De não mais me obrigar. De chorar, veja só, porque me descobri feliz, como aconteceu dia desses. E eu nem lembro qual tinha sido a última vez que tive um choro dessa qualidade. 

As coisas nem doem mais. Nada mais dói. E só a vida, essa vida nova, entrando por todos os poros.

E eu me sinto bem.


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