quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Da seca


Achei no meio das minhas coisas um bilhete escrito "por favor, quando a seca de Brasília acabar, não morra". E sorri.

Há uns dez anos eu saía da faculdade e ia pro bar de sempre todos os dias esperar meu então namorado sair do trabalho. Tomava uma cervejinha e escrevia até ele chegar. Sempre sozinha. Na época eu chegava cedo lá, então dava pra escolher uma mesa mais afastada e escrever, já que eu escrevia muito naqueles tempos.

Um dia tava lá escrivinhando quando chegou esse moço. Ele era um desses moços de happy hour que eu detestava: mesa cheia de amigos de trabalho que ficavam lá falando alto e importunando todas as mulheres viventes só porque depois tinham que voltar pra casa e pra esposa. E justamente um desses veio ter comigo.

Vale ressaltar que eu era MUITO, MAS MUITO escrota na época. Hoje sou um amorzinho.

Ele fingiu interesse nos meus escritos, perguntou o meu nome e perguntou se eu era jornalista. Respondi que não, que tava escrevendo meu testamento. Ele fez cara de chocado. Falei que tinha uma doença terminal e não ia passar do fim da estiagem. Me lembro de ter dito "vou morrer com a primeira chuva". Se ele tivesse lido García Márquez saberia que eu tava fazendo uma referência clara à sua Úrsula Buendía. Mas ele não leu. Fuén.

Obviamente alguém perto de morrer não era interessante pra ele, mas ele ficou com dó por eu estar sozinha. "Normalmente mulher sozinha em bar, você sabe, tá caçando". Eu respondi que tava esperando meu advogado. Ele perguntou se eu ia deixar muita coisa (!) e eu respondi que era da família Roriz. Hahahahahaha.

Logo depois meu namorado chegou, e ficamos umas duas horinhas por lá bebendo, e acabei esquecendo de comentar o ocorrido com ele. Quando a gente tava de saída o cara nos parou no meio do caminho e acusou meu namorado de querer me dar um golpe, porque só isso explicaria um advogado envolvido com uma cliente à beira da morte. Ele entendeu porra nenhuma, claro, e eu saí rindo. Só quando chegamos em casa fui explicar o ocorrido.

Isso foi num desses dias de seca doida aqui em Brasília. Me lembro que levou um mês pra chover de novo. E eu nunca tinha visto esse bilhete. Mas, mesmo o amor não tendo resistido às intempéries, não tem como morrer depois da seca. Quero estar viva na primeira chuva pra segurar a primavera com os dentes.

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