domingo, 1 de abril de 2012

Do processo de cura [2]

Brasília, madrugada, 16º. Volto da UnB sozinha [fui deixar o irmão na balada], e invariavelmente passo pelo eixo monumental. E me deparo com a cidade que, antes tão minha, eu reiventei pra gente. Eu desenhei essa cidade várias noites a fio só pra recebê-lo. E o coração aperta.

No som do carro, provando minha teoria de que Deus não tem senso de humor, começa a tocar Blackbird. Quer dizer.

Eu podia ter escolhido chorar as lagriminhas ali, escondida, pra ninguém perceber. Eu podia ter escolhido sentir essa dor e tentar conviver com ela na medida do possível, aceitando as coisas médias como quem aceita café requentado e arroz e anteontem. Eu podia ter aceitado, ter fingido que ia passar no próximo minuto, podia ter me lamentado eternamente, podia prometer a mim mesma nunca mais ouvir Blackbird ou Paul McCartney por não querer lembrar do show e, consequentemente, me lembrar dele.

Mas eu disse não.

Por Deus, pela primeira vez em meses eu disse não. Não pra essa mesquinharia que é viver como se viúva de alguém vivo eu fosse, não pra sentir essa dor como se eu não fosse capaz de viver de novo, e não, definitivamente não, pra essa historinha ridícula de abrir mão de quem eu sou por medo de lembrar. Resolvi pegar tudo que era meu de volta, lembram? Primeiro post do blog. Reintegração de posse.

Aumentei o volume do som, coloquei Blackbird no repeat e dei voltas no Eixo Monumental na altura da Catedral. Fui e voltei, fui e voltei, dizendo pra mim mesma que só sairia dali depois de pegar minha cidade e minhas canções e meu show de volta. Aquele show foi meu. Eu paguei por ele, eu vivi cada instante dele, e a memória da ingrata persona não merece, não merece um prêmio desse. Blackbird é e sempre foi minha canção, anos e anos antes dele, e jamais deixará de ser por ele. É assim que vai ser.

E ouvi repetidas vezes. E chorei copiosamente. E cantei em voz alta. E rodei e rodei e rodei na cidade. E quando percebi que só cantava junto, sem chorar, quando percebi que Blackbird era só minha de novo, quando percebi que minha lembrança do show não era mais de quem estava ao meu lado mas sim à minha frente [o Sir, no caso], tudo voltou ao seu lugar. Retomei meu caminho pra casa pesando oitenta quilos a menos.

Vou retomar tudo que é meu.

Não quero saber do lirismo que não é libertação




naonde eu permitiria que alguém me tomasse esse momento? Eu vivi isso. Ouça a minha voz ali.

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