sábado, 14 de abril de 2012

Da volta da maré.

Em tempos idos, quando a vida ia bem, eu costumava dizer "tá tão bom que dá medo". Vivia essa constante - coisa boa não dura. Me enchia de pavores jurando que tava pronta pra volta violenta da maré. Praquela ressaca fenomenal da vida.

Meu psicólogo acha que, se era defesa, era um instinto burro e sem propósito, que ao invés de me aprontar pra volta da maré me deixava esperando na praia fazendo a dança da chuva, querendo que a maré virasse a qualquer custo. E se não virasse por si só, obra e força da natureza, cabia a mim ir lá e alterar o sentido das coisas. Porque eu acreditei, por anos, que se tava ruim era porque ia piorar.

Hoje, hoje a coisa tá boa sem dar medo. E se o medo vier, se a maré virar, só penso em aproveitar o segundo infinito que precede o afogamento. Não tem mais essa de esperar que dê errado. Como disse, espero somente por dias ainda melhores.

E olha que eles vêm. Eles são.

domingo, 8 de abril de 2012

Do lirismo que é libertação

Pela primeira vez em meses, talvez anos, fiz exatamente o que quis nos últimos dias. A única coisa que fiz sem querer foi mergulhar na piscina numa noite fria pra cacete, mas tudo que eu quis eu me permiti fazer. Família, amigos, cachorro, tequila, saliva, roquenrou, sol, lua. Me permiti chorar quando achei que devia e sorri toda vez que me senti bem. E como me senti bem. Tive o melhor final de semana dos últimos meses, estive somente com quem quis e fazendo somente o que quis. É libertador ir dormir depois de um dia longo e não ter absolutamente nada do que reclamar: das pessoas, dos lugares, das escolhas, da música.

Me lembrou 2005, o ano mais interessante da minha vida - foi o ano mais pesado, mas também o ano mais livre. Não tem nada em 2005 de que eu me arrependa. Não tem nada de sexta pra hoje de que eu me arrependa.

Só não quero tudo de novo. Pros próximos dias, quero dias ainda melhores.

E haja tequila.

não quero saber do lirismo que não é libertação - mantra

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Veneno



Eles pensam que a maré vai mas nunca volta

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Yes, it is



Já não tem mais amor. Tem um suco de sentimentos ora amargo, mas que na maior parte dos dias eu nem bebo. Deixo de lado. E acordo sonhando com pessoas outras e situações outras. E tá passando.

domingo, 1 de abril de 2012

Do processo de cura [2]

Brasília, madrugada, 16º. Volto da UnB sozinha [fui deixar o irmão na balada], e invariavelmente passo pelo eixo monumental. E me deparo com a cidade que, antes tão minha, eu reiventei pra gente. Eu desenhei essa cidade várias noites a fio só pra recebê-lo. E o coração aperta.

No som do carro, provando minha teoria de que Deus não tem senso de humor, começa a tocar Blackbird. Quer dizer.

Eu podia ter escolhido chorar as lagriminhas ali, escondida, pra ninguém perceber. Eu podia ter escolhido sentir essa dor e tentar conviver com ela na medida do possível, aceitando as coisas médias como quem aceita café requentado e arroz e anteontem. Eu podia ter aceitado, ter fingido que ia passar no próximo minuto, podia ter me lamentado eternamente, podia prometer a mim mesma nunca mais ouvir Blackbird ou Paul McCartney por não querer lembrar do show e, consequentemente, me lembrar dele.

Mas eu disse não.

Por Deus, pela primeira vez em meses eu disse não. Não pra essa mesquinharia que é viver como se viúva de alguém vivo eu fosse, não pra sentir essa dor como se eu não fosse capaz de viver de novo, e não, definitivamente não, pra essa historinha ridícula de abrir mão de quem eu sou por medo de lembrar. Resolvi pegar tudo que era meu de volta, lembram? Primeiro post do blog. Reintegração de posse.

Aumentei o volume do som, coloquei Blackbird no repeat e dei voltas no Eixo Monumental na altura da Catedral. Fui e voltei, fui e voltei, dizendo pra mim mesma que só sairia dali depois de pegar minha cidade e minhas canções e meu show de volta. Aquele show foi meu. Eu paguei por ele, eu vivi cada instante dele, e a memória da ingrata persona não merece, não merece um prêmio desse. Blackbird é e sempre foi minha canção, anos e anos antes dele, e jamais deixará de ser por ele. É assim que vai ser.

E ouvi repetidas vezes. E chorei copiosamente. E cantei em voz alta. E rodei e rodei e rodei na cidade. E quando percebi que só cantava junto, sem chorar, quando percebi que Blackbird era só minha de novo, quando percebi que minha lembrança do show não era mais de quem estava ao meu lado mas sim à minha frente [o Sir, no caso], tudo voltou ao seu lugar. Retomei meu caminho pra casa pesando oitenta quilos a menos.

Vou retomar tudo que é meu.

Não quero saber do lirismo que não é libertação




naonde eu permitiria que alguém me tomasse esse momento? Eu vivi isso. Ouça a minha voz ali.