Eu tenho um defeito enorme. É algo que me acompanha há anos e eu não consigo, nunca, transformar em qualidade ou neutralizar os efeitos negativos disso: eu acredito na recíproca. Eu sempre me dôo pras pessoas achando, levianamente, que elas vão fazer o mesmo. Na mesma intensidade e com o mesmo grau de importância.
Claro que isso nunca aconteceu na história da minha vida. Sempre fui lá e movi o possível e o impossível pra fazer com que a pessoa a quem me dedico, seja qual for a natureza da relação, pudesse conquistar todos seus objetivos pessoais, pudesse alcançar o melhor de si, e tivesse sempre a segurança de que ali havia uma pessoa pra confiar a vida toda. E eu sempre achei, veja bem, que por agir assim, a outra pessoa obviamente iria agir assim também, porque recíproca é a pedra fundamental de qualquer relação que a gente vai estabelecer nessa vida.
Claro que não, né.
Sempre esqueci que pessoas são egoístas, mesquinhas e cheias de interesses escusos. Sempre esqueci que pessoas são voláteis em algo que acredito ser imutável: a lealdade, a fidelidade. Sempre esqueci que pessoas vêm e vão com uma velocidade e uma mobilidade assombrosa. Eu devia saber. Afinal, se a premissa fosse verdadeira, eu teria os mesmos amigos a vida inteira, porque não precisaria procurar outros. Teria encontrado enfim minhas relações perfeitas, e as teria vivido em plenitude e verdade.
Repassando mentalmente os últimos dias, de sexta-feira pra essa segunda quente e preguiçosa, me vem imediatamente à cabeça as palavras que li em uma rede social, abertas ao comentário e ao escárnio de quem se sentisse à vontade para fazê-lo. As palavras formavam uma das frases mais duras que já li, e diziam resumidamente e de maneira nada sutil que eu estava sendo dispensada. É. Como se eu fosse uma funcionária de uma grande multinacional que já estava em idade avançada, não tinha acompanhado os avanços da tecnologia e precisava dar lugar a três estagiários que juntos valiam ainda menos que meu salário. Fui dispensada de uma amizade de longa data e um histórico sem fim de sacrifícios. De perdões. De defesas indefensáveis e de uma crença mítica de que tudo que eu fiz por essa pessoa, um dia ela faria por mim, se preciso fosse. Essa necessidade fajuta que tenho de acreditar que as pessoas sentem por mim o mesmo que sinto por elas.
Cêis não têm idéia do que cabe nessa dispensa. Cabe três dias de choro, um choro assim sem ter hora, sem ter lugar, completamente inadequado e doído. Cabe arrependimento dos últimos anos de dedicação, carinho e verdade. Cabe a velha sensação de que essa amizade devia ter terminado antes, que já dava sinal de esgotamentos, que eu já sabia que o Power Trio era uma Dupla Dinâmica e eu à espreita, recolhendo as migalhas.
O negócio, o negócio todo é que as pessoas não vêm com prazo de validade. Ia ser tão simples. Ninguém tem “mau-caráter” tatuado na testa. Ninguém vem com um manual de instruções indicando que após um determinado período de uso a pessoa deteriora seus valores em nome de uma outra coisa que não vou nomear, só vou dizer que historicamente é conhecido como “cilada, Bino”. E parece que tem gente que tem dificuldade em entender que você pode ter relações paralelas às outras que você já tinha. Você pode ter namorado/a e ter amigos, não precisa se desfazer de nenhum deles. Até porque quando o amor do namorado/a acabar, é dos amigos que você vai precisar, né? Faz sentido não? Devia fazer.
Não vou dizer aqui que agora aprendi, e que isso nunca mais vai acontecer. Não vou dizer aqui que parou de doer. Perder alguém é uma das coisas mais doídas que tem. É uma dor que tem a idade da eternidade, dor velha, pesa pra cacete. Ser dispensada, então, é um soco no estômago de três em três minutos. Mesmo agora, dias depois, mesmo eu já tendo feito minha terapia de chorar três dias e três noites e seguir com a vida, mesmo agora essa dor lateja. Como se eu precisasse paulatinamente sentir isso e viver isso pra aceitar isso e não deixar que essa pessoa faça o mesmo. Pode até ser que isso se repita em outro momento da vida. Mas não dá pra deixar o mesmo desavisado pisar no meu coração assim, né.
Enquanto isso, vou tentando ter mais fé em mim. E parar de esperar por essa via de mão dupla que não existe. Lembrar que tem um momento que ela fica engarrafada, não dá pra transitar direito, e alguém vai andar de moto em alta velocidade pelo canteiro, destruindo os arbustos, só pra se dar bem lá na frente.
A viver se aprende. Já passou da hora, Daniela.
3 comentários:
a recíproca aqui é verdadeira. e a semelhança também. por mais que a gente não faça as coisas pedindo nada em troca, lá no fundo, no nosso subconsciente, a gente quer um mero reconhecimento, pelo menos.
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e, vou te dizer, tem pessoas que não merecem nem um pouco das expectativas que depositamos nelas. :)
No mínimo consideração, né? Já que recíproca é um conceito muito elaborado, pelo menos reconheça e considere tudo que o outro fez por você...
Nossa senhora, sou desse jeito, faço crendo que fariam por mim.. que erro.Consideração é o mínimo, ou deveria ser.
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