sexta-feira, 15 de abril de 2011

Jogo dos 70 erros

Te contar uma historinha.
Eu conheço um cara. O João Ninguém. Você deve conhecer alguém como ele também. O João Ninguém tem trinta anos. Mora com os avós. Não trabalha, porque é músico, toca na noite. O João Ninguém terminou o ensino médio. Até tentou fazer faculdade, mas não achou nenhuma que traduzisse seu perfil. O João Ninguém tem carro, que o vovô deu. O vovô também abastece de vez em quando.
O João Ninguém é o cara. Mesmo sem trabalhar e sendo um peso para o Estado, o João Ninguém se acha melhor que o pedreiro que tá reformando a casa do vovô, por um salário-mínimo. O João Ninguém, que não contribui com um centavo para pagar a conta de luz, reclama do pedreiro no twitter, o atual divã dos grandes babacas brasileiros. Reclama que o filho da puta do pedreiro fica fazendo barulho de manhã cedo, e ele não consegue dormir direito. Pobre João Ninguém. Aí o João Ninguém acorda puto, e vai soltar os cachorros em cima do vovô, que na noite anterior deu boa parte de sua aposentadoria pro netinho se "apresentar na noite" num barzinho descolado da cidade. "Porra, vovô, tava trabalhando, cheguei em casa quase de manhã. Manda esse orêia-seca (ou badeco, caso prefira) parar de fazer barulho aí."
O João Ninguém tem uma namorada, a Joana Ninguém. Criatura fascinante. A Joana Ninguém, mesmo namorando o João, dá pra todo mundo. Porque ela é uma mulher de seu tempo, de atitude, bem-resolvida. É inteligente, um pouco acima da média, afinal a mãe tá pagando a faculdade de publicidade naquela faculdade nova que abriu mês passado, e todo mundo sabe que os publicitários são os seres mais digievoluídos da face da terra. A Joana é culta - ouve boa música, lê bons livros, toma vinho tinto de mesa de vez em quando. E a Joana é outra que passa o dia no twitter falando que uma moça qualquer que mora na periferia é puta. Mas olha, Joana, que coisa. A moça faz exatamente o mesmo que você: dá pra todo mundo. Mas só porque não é das bem-nascidas da cidade, só porque ouve funk e só porque lê a Contigo, ela é puta. Completamente diferente da Joana que, como a gente sabe, é publicitária e mora em uma casa confortável com a mãe num bairro nobre da cidade.
A Joana, toda vez que chega na casa do João, reclama da empregada de lá. É que a Joana entra na sala, não vê o controle da Sky com trocentos e noventa canais, e já conclui que a empregada enfiou na bunda. Só pode. E a Joana nem vai procurar, porque se o controle não está ao alcance da sua visão, certamente estará na bunda da empregada.
O João e a Joana gostam muito de sair à noite pra tomar aquela cervejinha merecida pra quem ralou a semana toda na frente do computador atualizando o facebook. O João e a Joana até curtem umas droguinhas de vez em quando, porque eles são descolados. Mas só o pó, maconha é droga suja de gente suja. E fede. E eles são descolados porque são os bem-nascidos da cidade, só cheiram pra desestressar da rotina pesada. O zé-droguinha é o cara da periferia, que não tem valores, não tem família, tá nem aí pra porra nenhuma.
O João e a Joana são cidadãos de bem, pagadores de impostos e tudo o mais. Por isso, dia desses, eles se revoltaram porque o vizinho tava tocando um funk proibidão bem alto de madrugada. Daí ligaram pra polícia, né? Cadê o respeito? No final de semana seguinte, porém, o João tava dando uma festa e tava tocando só os clássicos do roquenrou. E o vizinho xaropou, chamou a polícia, acabou com uma festa pacífica e tal, uma reunião de amigos, altamente inofensiva. O João é o tipo de cara que estaciona seu carro na praça e liga o som altão, e acha massa, até um babaca chegar e fazer o mesmo. Só que se fosse um róqui doido tava massa, o foda é que o filho da puta chega ouvindo batidão num volume tão alto que é uma total falta de respeito. Porque você sabe, o direito só começa quando acaba o dever do outro e alguma coisa assim.
O João e a Joana, por não trabalharem, estudarem ou coisa assim, passam o dia no twitter comntando sobre os assuntos polêmicos. E na cabeça deles, a pior coisa que já existiu na face da terra é a inclusão digital. Porque todo mundo que é rico e bem-nascido já tinha computador ainda no século 20. Agora, com o barateamento (que não beneficiou o João e a Joana) de computadores e notebooks, qualquer pobre que escreve errado e ouve Latino pode ter Facebook. Ou twitter. Orkut, então, nem se fala, tá um nojo aquilo lá. Aí o João diz que "até gostava do orkut, MAIS hoje prefiro o facebook, é mais limpo, mais selecionado, mais clean". Maldita inclusão digital.
E por falar em polêmica, dia desses muito se falou sobre o deputado que execrou gays e negros e qualquer pessoa que não fosse branca, hetero, católica e conservadora. Aí o João ficou indignado, né. "Pô, tenho preconceito não, cara. Até tenho um amigo gay". Mas na hora de ofender qualquer pessoa, a primeira coisa que o João faz é dizer "Ô SEU VIADO". Mas ele até tem amigo gay, preconceito não existe não.
A Joana, por sua vez, acha que não tem problema chamar de viado, de puta, de burra, ou o que seja. "Liberdade de expressão existe pra isso". Aí fica subentendido o resto: "liberdade de expressão existe pra isso, pra eu ser uma babaca perfeita que ignora a condição humana de cada um".
Fim da historinha. Contabilize os erros, e me diz depois o que deu errado na escala evolutiva.

Como diz a "escritora" que tem exposto seu ex-marido em rede nacional mas diz que não quer chamar a atenção, CHEGA DESSA MERDA.

Explicando: li tanta besteira no twitter esses dias. Tanta coisa tipo os tumblr Classe Média Sofre e Tragédia da Empregada, que me sinto até culpada. Vergonha de ser branca, hetero, servidora pública e toda essa merda que rege. Me sinto horrível por ter que ler por aí o termo grotesco heterofobia. Sério, gente, heterofobia. Porque nego tá levando lâmpada na cabeça há anos por andar de mãos dadas. O João e a Joana. Eles sofrem pacaralho.