A gente faz seguro de vida. De carro. De casa. A gente paga imposto pra pagar salário da polícia, viatura da polícia, coturno da polícia, porque tá canção que ela existe pra proteger. A gente paga imposto pra ter iluminação pública, para ter um fiapo de segurança à noite. A gente espera da humanidade em geral que ela seja humana. Que ajude quem precisa de ajuda, que pratique o altruísmo. A gente faz isso à espera disso, porque a gente acredita que sim, a vida é uma via de mão dupla. Só que a gente faz e espera em vão.
A gente fica frustrada quando a bateria do carro acaba à noite num local ermo, precariamente iluminado e, à boca pequena, perigoso que só. E debaixo de chuva. A gente sente medo porque, à boca pequena, mulher sozinha andando por aí à noite "tá dando mole". Sério, dizem isso. Dizem até que mulher que usa roupa curta, decotada, sensual, "tá pedindo pra ser estuprada". Juro por Deus, O Brincante, que dizem isso, pode acreditar. Daí a gente fica com medo, né. Porque junto da gente, nesse momento, tem outra mulher. Outra igual a gente.
Daí a gente vê uma viatura e o medo começa a aplacar. A gente atravessa a pista correndo, debaixo de chuva, e fica lá, ainda debaixo de chuva, enquanto o agente policial que só come por conta do imposto que você paga mal abre o vidro elétrico da viatura que só existe por causa do imposto que você paga. Daí a gente, pela fresta, diz o que houve, e pede ajuda. E ele olha pra gente com seu olhar de autoridade preguiçosa que só grita com quem considera inferior e deixa claro, muito claro, mais claro que a maldita rua erma em que a gente parou, que não vai poder ajudar. Que a gente passou a vida inteira brigando por independência, que essa era a hora de mostrar que a luta valeu a pena. Que ele não dá a mínima pra gente ou pro que a gente precisava no momento. Ele deixa claro que jamais descerá daquela viatura comprada com dinheiro do contribuinte pra empurrar um carro de um contribuinte debaixo de chuva. Ele dá um sorrisinho amarelo, fecha o vidro elétrico da sua confortável viatura e observa a gente empurrar o carro no meio da rua, debaixo de chuva. De repente ele até ri. Ri da gente e do esforço que a gente tá fazendo pra voltar pra casa em segurança.
Daí a gente tá lá, empurrando o carro, enquanto a humanidade passa de carro, de moto, a pé, e fica só olhando. Dá uma buzinada. Chama de gostosa. Chama de burra, porque mulher não sabe dirigir mesmo, só pode dar nisso. A humanidade passa, observa, zomba, e esquece da gente na próxima curva.
Daí a gente desiste de empurrar, porque mulher não sabe pegar no tranco um carro que não tem nem um fiapo de bateria. E a gente tá na chuva, né. A gente liga então pro seguro, pago mensalmente e em dia há anos, nunca um dia sequer de atraso, porque a gente sabe que o dia que precisar do seguro, ele precisa estar em dia. E estava. Daí a gente liga e narra todo o ocorrido. Pede um mecânico. Um guinho. Uma esmola, pelo amor de Deus. A atendente vai estar transferido a gente pro setor responsável. Uma, duas, cinco vezes. O setor responsável informa que infelizmente não vai estar atendendo a sua solicitação porque sua franquia não tem cobertura para o ocorrido. É que o seguro da gente é de vida. Mas ora, a gente tava correndo risco de vida (ou de morte, como preferir). A gente tava exposta a assalto, estupro, sequestro. O setor responsável vai estar lamentando muito, mas vai estar impossibilitado de ajudar, no caso.
A gente fica frustrada. Engole o choro. Acende um cigarro. Faz planos de assassinato em massa.
No final quem ajuda a gente é a família. Os amigos de sempre, os mais próximos, aqueles de verdade. A gente se ajuda, pra não se afogar na pressa das coisas. Na espera do que não vem.
*
A vida é muito frágil. Recebi a notícia do suicídio de um colega, nunca muito próximo, nunca muito íntimo. Um macho alfa, machista, mas no fundo boa pessoa. Traía a namorada com que houvesse oportunidade. A namorada descobriu, e terminou, porque ele abusou da regra três. E ele, o macho alfa, não aguentou.
Vem da onde a gente menos espera.
Conforto para a família.
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